sexta-feira, 18 de março de 2011

TMS -Tráfico Management System (parte 1)




(Para fechar as comemorações do nosso aniversário de 3 anos, mais um post do fundo do báu do Buldozer, só que agora escrito pelo Mustache Rider. Essa ótima história semi-verídica deu o que falar na época. Espero que um dia o Mustache volte a dar as caras por aqui...)


Texto de Mustache Rider


Sempre achei que essa história de escrever para o Buldozer e viver fazendo piada das coisas algum dia ia dar uma merda. O pior é que eu estava certo e a merda foi grande. Mas vamos começar com a história...

Anos atrás em morava em Brasília mas decidi me mudar pois o mercado de trabalho lá estava uma porcaria na minha área. Para quem não sabe, eu sou programador e existem poucas empresas no setor no DF. Resolvi então ir para a terra das oportunidades: São Paulo.

No começo eu não tinha grana nenhuma, então fui morar meio que na periferia, em um bairro perto do Capão Redondo, um lugar bem barra pesada aqui em sampa. Meio que para sobreviver, acabei conhecendo uns figuras de lá. Não tinha jeito de não falar com os caras, via eles no ponto de ônibus, na padaria, no buteco, em todo lugar. E aqui é assim: se você não é amigo deles, é um inimigo, aí já viu...

Eu sempre fui muito de fazer piada com as coisas. Uma que sempre fazia era que algum dia ia fazer um sistema para os traficantes controlarem o tráfico, as bocas de fumo, etc. Vivia zoando com isso e imaginando como seria o sistema. A merda foi que essa história se espalhou e um dia veio um cara falar comigo.

- Fala mano, firmeza?
- Opa, tudo bem?
- Deixa eu me apresentar. Meu nome é Cebola.
- Cebola? Beleza, muito prazer.
- Pô, não vai querer saber porque me chamam de Cebola?
- Ehh, claro, porque te chamam de Cebola?
- Porque faço todo mundo chorar, hahahahahahahaha!

Eu pensei: "caralho, fudeu". Cebola continua a conversa:

- O lance é o seguinte, fiquei sabendo que tu faz uns lance aqui de computador. Da hora isso aí.
- Ah, valeu.
- O esquema é que eu tô precisando mesmo controlar os esquemas por aqui. Tipo quanto tem de pó, quanto paguei no pó de 10, 20, 50, quem tá me devendo, o nome dos neguinhos que a gente tem que dar um silêncio. Tá ligado?
- Só. Tô entendendo.
- Daí queria ver contigo quanto você tá cobrando pra fazer esses lances aí. Hoje é foda, controlo tudo no caderninho, trampo pra caralho.
- Beleza, vou pensar e eu te falo.
- Valeu, mano. Amanhã eu passo aí.

Obviamente pensei em não aceitar. Nunca iria fazer sistema para traficante, mas aí pensei que o cara podia pegar mal, me marcar e daí a casa iria cair pro meu lado. Então pensei em uma saída melhor para todos: vou cobrar um preço absurdo e o cara não vai querer fazer. Melhor assim, ninguém sai ferido. Chegou o outro dia e o cara apareceu de noite lá em casa:

- Fala, mano. Beleza?
- E aí Cebola, firmeza?
- Sóóó. Seguinte: pensou naquele nosso lance?
- Claro. Seguinte: o sistema todo dá pra fazer em uns 2 meses.
- E quanto fica tudo?
- Ah, tudo fica uns 50 mil.
- 50 mil! Porra! Beleza, amanhã já deixo uns 10% com você aqui adiantado.

"Porra, fudeu!", foi o que pensei na hora. O cara topou e eu ia ter que fazer! Nem adiantava fugir, ele ia me achar onde quer que eu fosse. O lance era fazer o projeto mesmo e aproveitar a grana. E o pior, eu nem sabia se em dois meses daria mesmo para fazer o bagulho (sem trocadilhos) todo.

Bom, já que eu não teria saída, então o lance seria fazer uma aplicação de qualidade que atendesse totalmente as necessidades do meu cliente. Normalmente a gente idealiza umas soluções bem legais, mas o cliente não tem grana para bancar tudo. Dinheiro não seria problema para eles, então resolvi inovar não só na aplicação mas também na solução de acesso e hardware.

Fiz um diagrama, imprimi e mandei chamar o Cebola para explicar o que eu tinha em mente. Chegaram o Cebola e alguns outros caras, a quem depois fui apresentado: Arroz (um negão de quase 2 metros de altura), Dedo (diminutivo de Dedo Nervoso) e Luizinho do Pó. Comecei então a apresentação:

- Então galera, todo mundo sabe que o mercado de drogas é algo bem dinâmico. A "equipe de vendas" por exemplo tem bastante mobilidade, então imaginei que cada um dos caras da boca poderiam usar um Smart Phone onde poderia acessar o sistema.

- Ismarti o que? Que porra é essa? - Perguntou o Luizinho.

- Smart Phone. É tipo um celular, só que tem umas frescuras a mais, tipo parece um computador também.

- Ah só, deve parecer com o meu Palm! - Disse o Dedo enquanto tirava do bolso um Palm-Top de última geração.

- Isso, é tipo um lance assim.

- Não interrompe o cara, porra. Vai lá mano, continua com sua idéia - Gritou o Cebola.

- Beleza. Então, daí a galera pode andar pelo morro inteiro e continuar acessando o sistema. Para o bagulho todo funcionar, vai rolar um certo investimento. Tipo, pensei em montar uma salinha com alguns servidores e disponibilizar o programa para o morro todo montando uma rede sem fio. Tá ligado?

- Firmeza! Tô me amarrando, continua.

- Então, daí você poderia ficar no seu barraco lá, com seu notebook na boa acompanhando o movimento. Além disso, através de um celular com acesso à Internet, a galera lá do presídio pode acompanhar tudo também. Olha só, fiz um diagrama para explicar o que eu pensei.



- Porra cara, que doido! Vamos fazer sim. Caralho, nego das outras bocas vão dizer: "aí, sabe o Cebola? Porra, aquele é um cara de vanguarda mesmo".

- Cebola, não quero ser chato não mas, como é que a gente vai colocar Internet aqui no morro para os caras de fora entrarem no esquema? - Interrompeu de novo o Dedo.

- Ah, já pensei nisso. Vocês podem usar alguma empresa aqui perto como fachada. Aposto que o pessoal da comunidade vai querer colaborar.

- Ok, mas e como será a segurança? - De novo o Dedo.

- Não se preocupe, vai rolar uns esquemas sinistros, tipo Firewall, essas paradas todas.

Então os caras começaram a rir, sem parar. Não entendi nada de começo, até que o Cebola falou:

- Hahaha, Firewall. Porra, Firewall é o nome de um chegado nosso aqui do morro.

- Firewall? Porque esse nome?

- Ah, é porque se nego tentar entrar aqui sem autorização, ele bloqueia e mete bala. Hahahaha!

- Só (caralho, onde fui me meter!). E aí, curtiram a parada?

- Beleza, só mais uma coisa: nesses computadores aí eu quero todos os programas originais, beleza? Tenho medo pra caralho de ser preso por pirataria.

- Ok, combinado.

Expliquei depois para eles o que eu imaginaria sobre a aplicação em si. Teria primeiro uma parte de cadastro básica com fornecedores, traficantes, armas, tipos de drogas vendidas, policiais (com a opção de dizer se o cara é aliado ou inimigo).

Teria também uma parte de estoque, com quanto de cada droga foi vendida, quanto está prometido chegar, quanto tem guardado, etc. Aliado ao estoque terá o módulo de vendas, com um recurso adicional de controle de inadimplentes. Se o cara não pagar, receberá automaticamente um e-mail cobrando gentilmente que acerte sua dívida. Após o terceiro e-mail, o pessoal da equipe de cobrança será acionado para dar baixa no cliente caloteiro.

No módulo financeiro, além de controlar o custo da droga, vai ter uma parte especial de folha de pagamento, incluindo as propinas pagas aos policiais corruptos, políticos, etc. Aliado a isso o sistema terá vários relatórios e gráficos que ajudarão na administração do negócio.

Por fim, pensei em fazer uma parte aberta aos jovens da região, com jogos, videos e dicas para ajudar a formar novos talentos e manter a equipe operacional sempre em crescimento.

Acertado tudo, recebi meus 10% adiantado e comecei a mandar bala (sem trocadilhos) no projeto. Comecei também a providenciar a compra dos equipamentos da infra-estrutura, tudo financiado pelo Cebola, claro.

Continua...